Este é o resumo de uma longa
história que se estende por mais de 4.000 anos! Conhecê-la é muito
importante porque dela se retiram ensinamentos, evitando a
repetição de erros cometidos no passado. Numa raça milenar não há
mais o que inovar; apenas preservar uma preciosa realidade. A
própria raça, bem conservada, se encarrregará de produzir sua
evolução e necessárias melhorias e adaptações.
O uso da cavalaria como arma de guerra na Península Ibérica é
muito anterior ao que se tem notícia no resto do mundo antigo,
datando de segundo milênio A. C. Não há provas do uso do cavalo de
sela na Antiguidade; na iconografia da Babilônia e do Egito
antigos, só aparecem cavalos engatados, puxando carros de combate.
Sabe-se que antes mesmo do período neolítico já se usava o
cavalo domesticado na Península Ibérica. A chados arqueológicos,
como as tumbas de guerreiros no sul da Península, demonstram terem
existido, na idade do Bronze, grupos que combatiam montados,
enquanto os infantes carregavam alabardas, que são armas próprias
para derrubar cavaleiros.
Homero na Ilíada (Canto XVI) faz menção aos Cavalos Ibéricos,
velozes como o vento e filhos da Harpia Podargo, fecundada pelo
vento Zephir quando pastava pelos prados das margens do Rio Oceano
( o Atlântico). Freios, ferraduras e armas de ferro datando das
invasões celtas ( séc. X e V a.C. ) comprovam a continuidade do
uso da Cavalaria na Península Ibérica. Tucidides e Xenofonte
relatam que um grupo de cavaleiros Ibéricos foi mandado por
Dionísio de Siracusa em auxílio aos espartanos na guerra do
Peloponeso ( séc. IV a.C. )
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"A
descrição das Guerras Púnicas por Estrabão é cheia de
referências aos exímios cavaleiros lusitanos que facilmente
atingiam eminências abruptas onde cavaleiros de outras
nações não se aventuravam" |
Na invasão da Espanha pelos Cartaginenses ( séc III a.C. ) os
cavalos ibéricos inflingem pesadas perdas aos invasores, morrendo
Amílcar, pai de Aníbal.Este, quando parte para a Itália, leva um
numeroso contigente ( 12000 cavalos) da cavalaria ibérica.
Estrabão, relatando estas campanhas, considera os lusitanos
exímios cavaleiros, que atingiam "eminências abruptas onde
cavaleiros de outras nações não se aventuravam". Asdrúbal, irmão
de Aníbal, levou consigo cavalos ibéricos para Cartago.
O cavalo que aqui na América se originou e posteriormente se
extinguiu, para cá retornou, sob a forma do cavalo ibérico trazido
pelos conquistadores espanhóis. Esse retorno deu-se inicialmente
na ilha Hispaniola (S. Domingo), com os primeiros cavalos e éguas
que Colombo trouxe na sua segunda viagem em 1493. De lá,
espalharam-se pelas ilhas de Porto Rico, Cuba e Jamaica e delas
para América Central e Colômbia, de onde passaram para o Peru,
Equador, Bolívia e Chile. Chegaram ao México com Cortez e daí
expandiram-se pelo oeste da América do Norte. Na América do Sul
chegaram em 1535 trazidos por Pedro Mendoza. Por outro lado, os
cavalos bandonados, quando da destruição de Buenos Aires pelos
índios, constituíram a base de numerosas manadas dos cimarrones ou
baguales, que por sua vez, deram origem ao cavalo Crioulo. Cabeza
de Vaca em 1541, trouxe cavalos para o Paraguai, desembarcando na
costa brasileira, provavelmente em Santa Catarina.
Todas as raças cavalares formadas no Continente Americano são
direta ou indiretamente descendentes dos Cavalos Ibéricos. Nos
Estados Unidos, o Mustang ou Mesteño, o Quarto de Milha, o
Appaloosa, o Seminola e o Cayuse ou Indian Poney. Na América do
Sul, o Crioulo, que salvo modificações do meio ambiente, é memso
cavalo do Norte ao Sul do Sub-Continente.
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"Todas
as raças formadas o Continente Americano, como Mustang,
Quarto de Milha, Appaloosa, Seminola, Cayuse, Mangalarga,
Crioulo, Campolina, etc descendem direta ou indiretamente do
Cavalo Ibérico" |
No período imperial, como atestam Políbio e Tito Lívio, os
cavaleiros ibéricos foram teríveis adversários para as legiões
romanas durante guerras que duraram mais de 200 anos. Os romanos,
como relata Dr. José Monteiro:
"... nunca se notabilizaram pela sua cavalaria, sempre batida
pela cavalaria ibérica...A própria tática de combater e a
equitação da Península são adotadas pelos romanos. Grande
reputação como cavaleiro e domador de cavalos teve o lusitano Caio
Apuleio Diocles...que viveu no Século III da nossa era e teve uma
estátua em Roma, no Campo de Marte".
Segundo o Dr. Ruy d’Andrade, hipólogo e "pai da
linhagem"Andrade, as estátuas de Balbo, de Calígula (com Incitatus,
o cavalo de altos andamentos) e mais tarde a de Marco Aurélio (que
era espanhol) são sinais evidentes do cavalo ibérico que usavam os
romanos.
Os bárbaros que ocuparam a Ibéria (409) não fizeram desaparecer
a civilização romana e a criação cavalar continuou. Isidoro nas "Laudes
Hispanie"diz que os cavalos ibéricos eram os melhores do mundo.
Romanos e cartagineses e todos os demais invasores trouxeram
animais da Itália, Líbia, Numídia e Mauritânia e de outras regiões
nas sucessivas incursões que realizaram na Península Ibérica.
Porém, como bem diz Ruy d’Andrade:
"... a calma e o descanso que gozou a Espanha desde 100 anos
antes de Cristo até cerca de de 500 d.C. representam um período de
cerca de 600 anos, que acrescido de mais 250 anos do período Godo
(450 a 700 d.C ) completa um total de mais de 800 anos, tempo mais
que suficiente para a formação e fixação de uma raça plenamente
adaptada ao meio."
Na invasão dos árabes, as versões são várias e contraditórias,
como atesta o Dr. José Monteiro:
"... a invasão da Península pelos muçulmanos se fez com
diminuta cavalaria...quase que exclusivamente bérbere, outros
avaliam-na em 17.000 cavaleiros e outros em ainda 30.000".
Durante a longa dominação moura (711 a 1492) houve nova
introdução de sangue pelas importações africanas de Marrocos.
Todavia, não havendo na época grandes diferenças raciais entre os
cavalos do Norte da África e os da Península Ibérica, essa nova
adição sanguínea, como as anteriores, foi absorvida sem modificar
o tipo racial homogêneo autóctone. Sabendo-se contudo que o cavalo
ibérico encantou os novos invasores, continuando durante a
ocupação moura a desenvolver-se a criação na Península Ibérica e
havendo grandes exportações de animais para a África e o Oriente.
A Idade Média foi outro período de afirmação do valor do cavalo
ibérico, usado nas Cruzadas por guerreiros como Ricardo Coração de
Leão (1119)
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"Para a Europa da Idade Média, o Ibérico era o verdadeiro
cavalo de sangue e por isso foi exportado para toda parte
para fazer cavalos ligeiros" escreveu Dr Ruy d’Andrade. |
Durante a Renascença, os cavalos ibéricos se destacaram na
Itália sob a dominação de Ginnetes e Villani, que eram
provavelmente o resultado de cruzas com cavalos vindos de França,
Flandres e Alemanha. Essa influência mais se acentuou em Espanha
ao tempo de Carlos V, Felipe II e Felipe III, que teriam
introduzido o cavalo Napolitano.
Nos séculos XVII e XVIII procurou-se obter cavalos de maior
porte e poder para levar cavaleiros vestidos de pesadas armaduras
metálicas. A partir de 1700 inicia-se também a procura por animais
de tiro, pois, as estradas já eram melhores, possibilitando
sobretudo em França e Espanha a utilização de carros e carroças.
Data do século XVIII o início da grande diferenciação hoje
evidente entre os cavalos espanhóis e portugueses. Como relata
José Tello Barradas:
"... Embora havia vários fatores a condicionar a diferença
entre as que hoje se consideram raças Andaluza e Lusitana, creio
que o que mais pesou foi o aparecimento e total implantação do
toureio a pé em Espanha... que surge nos primórdios do Século
XVIII..."
Completa Arsênio Raposo Cordeiro:
"O abandono do toureio a pé na Espanha obriga a uma nova
seleção do cavalo... que passou a ser usado como cavalo de recreio
e animal de tiro ligeiro, onde a exuberância dos seus movimentos
mais altos e menos progressivos era bem flagrante. Entretanto em
Portugal, com a continuidade do toureio a cavalo, foi-se dando ao
cavalo Lusitano uma mais cuidada seleção, no sentido de produzir
um animal com reais potencialidades para a prática do toureio,
onde não são anímicas força muscular e andamentos progressivos,
com capacidade de reduções e aceleramentos bruscos."
A partir do Século XIX, com o advento da mala postal, melhoria
das estradas e introdução das ferrovias, o cavalo de sela conheceu
relativo declínio, acentuado no século seguinte, principalmente
após a Grande Guerra (1914/18), pelo automóvel e pela injeção dos
sangues inglês e árabe nas remontas militares.
"Os cavalos ibéricos foram na própria Península vítimas dessas
modas. Delas só escaparam algumas manadas de criadores vernáculos
e conservadores, vivendo de realidades, que não quiseram saber de
novidades." Escreveu
o Dr. Diz Ruy d’Andrade
A força da raça mostrou-se superior a todos esses acidentes
históricos e novidades, por maiores ou piores que tenham sido
essas incursões sanguíneas exógenas ou modismos, o cavalo ibérico
sempre acabou por triunfar e assiste-se agora, em todo o mundo, a
um renascimento vigoroso da procura por esses animais fabulosos e
a conseqüente valorização mercadológica da raça.
Assim como os poucos milhares de cavalos de qualidade inferior
que os bárbaros do Séc.V trouxeram não modificaram uma massa de
mais de meio milhão de cavalos da Península Ibérica daquele tempo,
também a introdução do sangue árabe nos séculos VII a XV ou do
sangue do norte trazido pelo modismo dos séculos XVIII e XIX não
tiveram influência sensível.
Como a colonização americana demonstrou, manadas de éguas
criadas a campo com cavalos soltos, revertem ao tipo original e
"o espúrio desaparece, expulso pela inadaptabilidade" (dr. Ruy
d’Andrade).
Por essa razão conservou-se puro o Cavalo Ibérico, apesar de
variantes de tamanho, de tipo e sobretudo de uso, nas diferentes
regiões de Espanha e Portugal. Em 1967 fundou-se o Livro
Genealógico Português de Eqüinos (Stud Book), cuja manutenção
ficou a cargo da Associação Portuguesa dos Criadores do Puro
Sangue Lusitano.